Crise na saúde pública de Campo Grande expõe colapso assistencial e debate sobre intervenção
Audiência Pública reúne pacientes, gestores, hospitais e Ministério da Saúde para discutir soluções estruturais
A crise na saúde pública de Campo Grande foi tema de Audiência Pública promovida pela Câmara Municipal de Campo Grande na manhã de ontem segunda-feira (2). O debate reuniu pacientes da rede pública, representantes de trabalhadores da saúde, diretores hospitalares, integrantes do Ministério da Saúde e da Secretaria Municipal de Saúde.
A discussão foi motivada pelo colapso assistencial enfrentado pela Capital, marcado por superlotação nas UPAs, falta de medicamentos e insumos, paralisação de serviços na Atenção Primária, fragilização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e falhas na regulação de leitos.
Proposta de pacto institucional e debate sobre intervenção
A vereadora Luiza Ribeiro, presidente e proponente da Audiência, defendeu a criação de um pacto institucional para enfrentar a crise.
“A criação de um pacto institucional para desestrangular a municipalização do SUS e trazer saúde melhor para as pessoas”, afirmou.
Segundo ela, a Câmara deve seguir promovendo novos debates diante do “grave cenário de crise estrutural e assistencial”, com reiteradas denúncias sobre a precariedade do sistema.
O tema da possível intervenção estadual ou federal também foi discutido. O Conselho Municipal de Saúde, a pedido do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul, concedeu prazo para melhorias na gestão, considerando que o novo secretário municipal assumiu a pasta em janeiro. O assunto deve voltar à pauta em maio.
Leitos ociosos e falta de recursos
À frente do Fórum das Entidades Representativas dos Usuários de Saúde, Sebastião Arinos Junior afirmou que há leitos disponíveis que poderiam ser contratualizados, citando unidades como o Hospital Universitário, com cerca de 30 vagas, além do Hospital de Câncer e Hospital do Pênfigo.
Ele destacou que a falta de recursos impede a utilização dessas estruturas e reforçou a necessidade de maior participação do Estado nos investimentos.
Falta de insumos e sobrecarga dos trabalhadores
O presidente do Conselho Municipal de Saúde, Jader Vasconcelos, relatou que 2025 tem sido um dos anos mais difíceis para os servidores da saúde municipal.
“Está faltando o básico para trabalhar. Falta medicamento, insumo”, afirmou.
Segundo ele, trabalhadores têm arcado com itens básicos, como papel higiênico e material de limpeza para manter o funcionamento das unidades.
Representando o Conselho de Psicologia, Walkes Vargas defendeu a participação mais efetiva do Estado e da União. Ele também alertou para o aumento de casos de agressões contra profissionais de saúde, reflexo da insatisfação da população diante da precariedade do atendimento.
Pacientes relatam dificuldades
Pacientes também usaram a tribuna para relatar problemas recorrentes. A jornalista Ana Rita Amarilia, que é diabética, relatou a falta de medicamentos e insumos essenciais.
“Já peguei a medicação sem a seringa também, o que não faz sentido”, afirmou, ao mencionar a ausência de insumos para aplicação de medicamentos injetáveis.
Hospitais alertam para financiamento e riscos de intervenção
Diretores do Hospital Regional de Campo Grande e da Santa Casa de Campo Grande participaram da Audiência.
O diretor do Hospital Regional, Paulo Eduardo Limberger, destacou a importância da regulação de leitos, regra prevista pelo Sistema Único de Saúde.
Já o diretor de Negócios e Relações Institucionais da Santa Casa, João Carlos Marchezan, relembrou a intervenção ocorrida em 2005, que classificou como traumática, com aumento significativo da dívida hospitalar.
“Intervenção tem que ser muito bem pensada, porque significa supressão de uma instância”, alertou, defendendo avaliação criteriosa sobre financiamento e gestão.
Recursos e impasse na prestação de contas
O superintendente do Ministério da Saúde em Mato Grosso do Sul, Ronaldo Costa, citou dados do relatório do terceiro quadrimestre de 2025, apontando restos a pagar de R$ 1,3 bilhão no orçamento da saúde de 2025 para 2026.
Segundo ele, a União repassou R$ 763 milhões e o Estado R$ 278 milhões, questionando a execução dos recursos municipais.
O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, afirmou que o SUS é tripartite e que nenhum ente isoladamente resolverá o problema.
“Estamos em momento de transição e reorganização administrativa”, declarou.
Ele reconheceu a gravidade da situação, mas afirmou que a intervenção é instrumento excepcional e que, antes disso, é necessário fortalecer o plano de ação pactuado.
Ministério Público acompanha situação
O Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul instaurou procedimentos e ações judiciais para apurar falhas na prestação dos serviços, tanto na rede municipal quanto hospitalar conveniada.
A crise na saúde pública de Campo Grande segue como um dos principais desafios da gestão municipal em 2026, com expectativa de novos debates e definição de medidas concretas nos próximos meses.
(Com informações da Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal)

